quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
TARDE DE DOMINGO
domingo, 27 de dezembro de 2009
Fenômeno I
O suor escorreu enquanto engolia o café.
O espelho espelhou as gotas
Gotejando no deslize das curvas do corpo.
O suor escorreu nos azulejos também.
Gotejou nas fugas desnudas de outrem.
Pingou nos pisos
Brotou dos lismos:
Corpos secos sem nenhum vintém.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Silêncio
Um dia, você abrirá as pálpebras, espreguiçará em meio a bocejos. Colocará os pés no chão e caminhará depressa até o banheiro. Mergulhará seu rosto em água, espelhar-se-á e contará, se puder, as rugas. Nesse mesme instante, calculará quantos minutos ainda faltam para a vela do jantar romântico da madrugada, apagar-se no que restará do pavio. Nesse dia, você vai comer doces e uma orelha-de-gato dormida, saborear seu café com leite e muito açúcar, do jeito que gosta, e esperará pelo ônibus 705 que leva até o Terminal PROEB. Como de costume, você cumprimentará o motorista e o cobrador, os únicos aparentemente alegres dentro da condução. Seguirá até o seu trabalho, abrirá a loja, dirá 'Bom dia' em voz clara, então, passadas três horas na loja de confecções femininas em que atua como caixa, virar-se-á para a janela e perceberá que a rua está vazia. Silêncio. Como era de se esperar de uma pessoa como você, você ficará surpreendida, e isso logo se estampará em sua face avermelhada pelo sol. Curiosa, correrá até a porta, visualizando com olhos panorâmicos, uma imensa multidão se aconchegando na beira-rio da Avenida Castelo Branco. Você não hesitará em acelerar os passos e entrar para a estatística da quantidade de pessoas reunidas para algo desconhecido. Você procurará alguma resposta através dos olhares, mas estarão todos voltados para o rio. Na fadiga, da busca sem diálogo, você indagará a um andarilho que estará ao seu lado: O que está acontecendo aqui? Ele, sem muito enfeitar a frase, falará: Uma data especialmente registrada para a morte oficial de todas as capivaras: Dia dezessete de fevereiro de dois mil e quarenta e três. Não sabias? Você perderá o fôlego e para via das dúvidas, cairá sobre o asfalto reanimando-se nos braços do seu amor, em seu apartamento. Deitará sem assistir a televisão, nem mesmo conectando a internet e verificando os e-mails coloridos de suas amigas. Dormirá para iniciar o dia dezoito de fevereiro de dois mil e quarenta e três, suculento de novidades. Você não estará feliz pelo acontecimento. Não ficará feliz com as notas dos jornais, e também não fará nada para transformar o mundo. Com o tempo, as suas rugas estarão muito mais evidentes, sua caminhada será mais lenta e os ônibus, praças e eventos lhe reservarão espaço preferencial. Num dia desses, você não abrirá as pálpebras. Não vai repetir, e também não fará nada para transformar o mundo. Com o tempo, nascerão muitas pessoas, com vidas idênticas a sua, e algumas destas notarão que há muito tempo atrás já existiam pessoas parecidas com vocês. Entre estas ainda, terão poucos que tatearão até ouvir ecos de um retorno, eterno retorno da humanidade. Silêncio.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Presságio
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Latifúndio
Linhas traçadas, reinventadas, tortas. Tortas, totalizando o nada.
Nem abismo para me arremessar.
Nem uma face abismada.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
A miséria
Remonto o tempo:
A arte de saber
Soberba sucumbe:
em miséria:
em leito:
em morte:
da morte:
Dê-me morte
o pranto:
O desencanto
A miséria...
Faça-me morte
o verme:
[apenas]
A miséria...
[somente]
A mim séria...
[eu]
A miséria...
A miséria...
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Choque
que
descobri
que
existem
mais
estrelas
do
que
grãos
de
areia,
contemplo cada noite com a plenitude de um paciente terminal...
domingo, 25 de outubro de 2009
"Imorrível"
farejei a parede e engoli poeira.
Perdi os minutos,
como se fosse o último:
Que nunca o tive e ei de ter!
[Nó]
A sombra engolida pela poeira,
Um revólver sobre a cabeça.
[Só]
E termina. O fim de tudo.
[Pó]
Ouve-se ao fundo um ruído dissoluto
Nada.
O apito da fábrica no exato minuto.
domingo, 11 de outubro de 2009
Retalhos do barco
escrevo-te no tom mais sutil que encontrei.
Essa rima boba que deixei, é o risco de tudo que aceitei...
Estou lembrando das frases não ditas e por mim imaginadas.
Das mãos entrelaçadas, perigosas, precisas.
Dos cabelos encontrados pela sala.
Lembro-me dos beijos roubados, prolongados junto as tuas palavras.
Daqui não enxergo o chão, no qual caí quando partiste.
Agora flutuo abestalhada, abastada de dinheiro fútil.
Pouco restou da comédia romântica, salvo as atrizes,
com seus papéis de ridículas em vidas simultâneas.
Avisto o porto, preparo minhas pernas ensinando-as voar.
Um pulo só,
só no mar.
domingo, 4 de outubro de 2009
A praça I
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Estrela
Sufoco refogado de infames palavras que contornam
a mente.
Com música entupindo as veias
Entorpecidas, entorpecente:
Calor no estômago
Gelados estão os lábios,
o ventre.
A noite germina com ela
A noite termina com ela,
Longe dela.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Pós-taça
domingo, 9 de agosto de 2009
Dia XXX
Toda a estrada é sala
E os cantos, cozinha.
Tudo que é estranho:
Cozinha o canto lírico
Desmantela a poesia...
[Fragmentando códices
Gozando a letra que surgia
O impulso entorpecente
Que a palavra consumia]
Todo o asfalto é cama
E toda angústia, frívola.
Tudo que é estranho:
Frívola memória fria
Regurgita em poesia...
sábado, 8 de agosto de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
À trabalho
- Por favor, café com leite e muito açúcar.
sábado, 25 de julho de 2009
Para uma nova despedida
Tudo tão íntimo, no terceiro olhar já é estranho.
A música que ouvia em seu mp4 era a mesma que ouvia em outras despedidas.
Agora eram outras pessoas, e era outro lugar que desvendava.
A música, a mesma, porém all these places have their moments.
E um dispositivo biológico a fez continuar seus passos em câmera lenta.
A música faz sentido, principalmente em seu toque misterioso, que jorra lembranças.
There are places I remember...
E já no outro dia, no mesmo lugar, ainda desfrutava a detetive enrustida naquela mulher.
Aquele lugar estava estranho de novo. São os mesmos lugares, Though some have changed.
A mesma música para outra despedida.
Ela se imagina em uma calçada em um dia frio no meio da multidão. Só na multidão.
Porque é um corpo que se arrasta e cheira o vão deixado pelo perfume dos que partiram.
Talvez tenha sido ela que partiu: A vida, como ela era. Ela, a vida. Partiu uma maçã e comeu.
Lembra de tudo. De todos os rostos e abraços e afetos. Agora mais vivaz.
Por favor, fundo musical!
Play.
Os rostos aparecem de novo: Some are dead and some are living.
Ela não percebe que é o seu rosto que reflete na água e já lhe marca a idade.
De quem amou?
In my life i've loved them all...
Ela precisa ouvir de novo. E escreve. Escreve com as dores de quem sente o frio proposital.
Escreve para marcar um novo rosto.
Para ouvir de novo...


