segunda-feira, 31 de maio de 2010

História dos risos de Alan

Alan nasceu, cresceu e morreu. Incrível, não? Pelo menos o bendito cresceu, mas cresceu tão pouco, tão pouco que antes que os pêlos pudessem o demarcar como um corpo adolescente e masculino, ele “já era”. “Ah! o Alan”, falava a matrona vizinha, “um menino tão doce e com um talento pra música”, e tão minúsculo, tão alvo, tão frio aquele corpo. Alan cresceu por ali naquele bairro pobre e alegre, a vizinhança com música alta dia e noite com os sucessos das novelas, funk, rock, sertanejo, punk aos gauchescos. E a matrona contou o fato, que se verifica verossímil, pois o garoto cantava na igreja que os avôs e um casal de tios freqüentavam. Enquanto ele louvava ao Deus cristão, o pai preferia a cachaça e a mãe adorava saber de antemão o que de novo teria na novela das seis, os dois irmãos limpavam os catarros que escorriam de seus narizes e corriam pela estrada, caíam e faziam cicatrizes. Numa certa manhã de um certo dia, Alan foi a um certo teatro de arena com a família. O guri sentou na beirada, gargalhou do começo até perto do fim. Gargalhou muito, como nunca antes. Riu do personagem bêbado, e daquela outra gorda que aparecia para assustar a platéia, riu dos que tinham as orelhas grandes, e de toda aquela história. Alan esqueceu que rir da desgraça alheia era pecado, esqueceu do inferno, esqueceu do diabo! E só lembrou-se de Deus no fim, quando apareceu um velho de barbas brancas. O velho, a personagem que matou o palhaço. Estava quase no fim da peça, quase no fim. Rira muito até ali, até ali ele rira, e...Alan caiu,

morto.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

domingo, 16 de maio de 2010

Essa vida é muito estranha, né...

Ele acha que a vida é tão curta

É tão curta a noite

Pra resolver em tão poucas horas...

Então vai...

E se encontra na fumaça que se faz

Projetada na luz colorida dos olhos

E chore, e chore, e chore

Agora

E chore, porque o tempo é uma anedota

E a rotina que mata, aborta!

Se curva na curva da estrada

Na curva do rosto e chore

É tão jovem o corpo

Pra resolver em tão poucos anos...

Então vai...

E se funde na viagem, nunca volte

E vá...

Meu amigo, eu te amo.

Tudo acaba quando tudo recomeça

Nos vemos, em breve, no trem

De uma mesma viagem ao além...

Estrelas eu vejo e desenho

Tu desenhas estrelas pra mim

Sentirei saudade, eu sei,

Mas aqui não é céu pra ti...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sono carrasco

Eu sonhei que estavas morto. Acordaram-te com uma agulha. Agulhadas de lágrimas coloridas. Eu o vi no caixão com os dedos duros. Ele estava morto com os cabelos cinzentos.

Eles estavam todos mortos com as mãos apertadas derramando terra.

E também sonhei com elas. Estavam vivas e sorridentes sobre uma colcha de cetim. Contavam-me os anos passados e futuros. Um buquê de flores no bidê escondendo o abajur. Uma malícia adocicada de vinho. Então adormeci, pois não sabia proceder ali.

Eu como adorno.
Como a dor no
Prato da alma.

terça-feira, 27 de abril de 2010

De que valem as ruínas sem risco?

De que vale uma vida vazia?

Palavras sugadas,

Enxutas, expostas ao sol.


De que vale uma vida romântica?

Palavras seguras,

Capciosas, cretinas.


De que valem as mãos sobre a cabeça?

A cabeça sobre o chão

O chão fincado nas mãos

O afinco afiliado de solidão?


De que vale o pássaro voar?

Os aviões também?

O céu azul?

A matemática?

Os arrotos intelectuais?

As elucubrações poéticas?

Os noticiários?

Os rincões inabitáveis?

As telas?

As celas?

As células e seus núcleos?


De que valem as palavras?

A língua?

A minha, a tua?


De que valem os organismos indóceis em terra firme?

Os muros?

A imensidão?


De que valem os sonhos sem ossos e a imaginação sem corpos?


terça-feira, 13 de abril de 2010

Fuga


Penso,
Logo lamento.
Logo choro
Num arrebento
Num coro
Dum sentimento
Dum lago
Sem vozes.
Cem doses:
Goles secos
Sabor sangue
O céu firme
A “terra em transe”.

Tragédia, violência e viola
Violar a comédia em virulência
Virtuosos despidos da doença
Engolem o pó que a vida acalenta.

Penso,
Logo grito.
Logo esparramo
Num infinito
Num murro
Dum rito
Dum apachismo
Sem doses
Cem vozes:
Berros secos
Sabor sangue
O céu firme
A “terra em transe”.


Tragédia, violência e viola!
Tragédia, violência e viola!
Tragédia, violência e viola!

O cachimbo
O vento de solidão
Os sinos
As palavras que se repetirão
Solidão.
Solidão.
Solidão.

Não há tolhimento na virgindade da juventude
Mas ela continua virgem!

Não há nudez tão bela quanto às vestes da juventude
Mas ela continua vestida!

Tão ambígua
Tão pueril
Tão cretina!
Que já desistiu:
Dependência ou morte?
A comédia em cartaz no mês de Abril!

Não penso,
logo abdico.

Nem reflito, nem desejo, nem crio.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os pêlos são a proteção

Estou nua.

Incompleta,

Tinta e Estilete
estilhaçam o estilo

Tinteiro.

Meia

idade

Grisalho

Alto

Meio

Gordo,

Meio,

Curioso.

Boina

Casaco

Listrado

Sotaque

Jogado.

Transeunte.

Observador

Perguntou

Sobre

Mim,

Sobre

minha

História,

minha

vida.

Pouco

respondi

Ele

interviu.

Ouvi

Sobre

sua

História,

Sua

vida.

Física

Quântica

Matemática

Quanta

Química,

pensei.

Fitou-me

Olhos

Escuros

Convictos

Voz

Doce

De

Corpo

Amargo.

Que

Lhe

Basta

A

Alma

Da

Outra

Para

Lhe

Mediar

O

Sabor.

Aproximou

Franziu

A

Testa.

Distanciou

Para

O

Nunca.

Na

Porta

O

Corpo

Dele

Regressou.

Um

Sorriso

Fundido

Com

As dobras

Do

Rosto

Dobrou

O

Joelho

Inclinou

A

Cabeça:

“Viver

é

um

barato!”

segunda-feira, 29 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

Duas horas das manhãs

Eu quase fui tomada pelo vento
Vendo tomadas de

“Vendo tomadas!”

Vender vem de ver

Inverter

O inverso é promíscuo
O seu verso é sagrado
nem
velcro, nem viado.

Eu sei,
o canto bonito
é o canto da esquina
que ele financia
as meninas.


Eu sei,
a bolsa bonita
é a bolsa de valores
que eles rodam
e eles inflam de horrores.


Eu sei,
os homens e mulheres estão ouvindo o versículo que fazem dos outros pobres, negros e prostitutos e não se limpam com a piedade que excitam suas larvas barrigudas de preconceito.


E os seus versos, hein?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Nomeie depois de ler

Quero escrever uma carta suicida. Hoje é um sábado ensolarado, e isso ainda sei descrever. Meus sentidos parecem funcionar como a ciência redige cada prescrição inovada que institui. Ao meu redor os raios solares penetram num esplendor sinistro e fixam na minha derme por alguns instantes que me ferve o corpo. É um dia ensolarado e os carros correm em direção às compras, aos supermercados envenenados de promoções, aos fast-foods, às suas casas, às praias, às mortes. Eles correm em direção a morte, mas juram gozar da vida. Caminhando por entre as sombras algumas mães, alguns filhos, alguns empregados, alguns “sem título”. Devem ter a Identidade. São cidadãos (isto foi um amigo que disse)! Os que perambulam não, estes não tem e tampouco querem (isto é o que eu escrevo em uma carta suicida). Por isso não quero teu acato, leit@r, se não concordas. Quero escrever para que me compreendas no último fio que me segura a existência e me envolve pelos contratos estabelecidos enquanto vivi. Alguns registrados em livros gigantes (conheci em um cartório pesquisando certidão de óbito, são muito grandes, e as meninas que lá trabalham quase não conseguem carregar), outras relações de gente, outros apenas de papo, de sala de aula, de vizinhança, de sobrevivência. Cansada. Acordar quando deseja o sonho, sonhar quando deseja estar criando. Correr porque o sinal fecha, pagar quando o sinal indica o número. Sorrir quando a roda força, forçar quando chorar não faz sentido. As linhas são retas e quando entortam é preciso seguir. Que merda! Eu não quero! Desculpas não me preenchem mais, minha vida é boemia na inserção de Agá-dois-ó: câmera Agá-dê, Agá-dê de muitos gigabytes. Humanidade, esse é um Agá-dê-merda! O mundo não é o meu prédio. Meu prédio é uma boemia.
O prédio é uma pira, uma merdinha forrada de cimento e tinta moldando pessoas que não expelem o que lhes afligem: nenhum grito de prazer. E todos gritando pra que se pare de gritar pelo parar de gritar. Moro lá, ou sou parte dele (Isto era pra ser uma pergunta). Uma pedra. Um escombro. Sou uma suicida em um prédio suicida.
Neste exato momento alguns seres humanos agonizam em sua hora de morte. Cada um em suas condições. Uns em um hospital de altíssima tecnologia, com os familiares ao seu redor e o padre ungindo dos pecados. O outro era soldado, morrendo pela pátria, sem ninguém. Uma criança em uma catástrofe da natureza. Um velho em um acidente. Um pássaro que chocou com um carro espatifando-se no asfalto. O verme que morreu com todos eles. Olha! O verme é o derradeiro a morrer! Pior que verme, todos somos pior que verme. Pior não seria a palavra certa, e nem certa eu seria se dissesse que não fosse pior. Então que fique em prol da linguagem e que julguem através do ‘prazer comunicado’.
Esta parte da carta suicida, é o espaço em que eu descrevo a minha vida







Como mencionado acima, muito vivi.
Sarcasmo e deboche são como Vodka para quem nunca havia bebido nada com teor alcoólico antes. Inundante. Entorpecente que se leva em baixo dos braços para as filas, dos ônibus, dos postos de saúde. É com isso que se lê os jornais e apenas com isso que se repete a leitura das mesmas colunas. E se continua a ler isto.
Uma carta suicida reclama de tudo. Não reclames, leit@r se isto lhe fere a alma. Não reclames se isto nada lhe fere. Escolheste ler. Não é uma carta endereçada, não é direcionada. A solidão a acompanha, assim como acompanha a morte pensada por si mesma. Covarde ou corajosa? Nunca desvendei o mistério, nem me orgulho de ter de me conceituar em um dos termos. Que a morte seja plural, que seja singela.

- E todos voltaram com as flores e deixaram seus violões. A chuva apagou os toques e inchou as madeiras. Cantaram aquelas canções nada convencionais e planejaram a ira de milhares, trazendo à tona as angústias de muita gente. Um copo de plástico decorava a sepultura que era de um cinza chapado, que se via sobrepondo as vontades de um cadáver que nada mais queria, a não ser voar e se esfarelar em pedaços de sentimentos vividos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

o mundo espera que eu lhe mande beijos...

Obrigada.

Não quero inscrever,
dou-te minhas marcas,
marco-te em uma página,
Escrevo porque lês,
leio porque egoísta
sou.

Não quero inscrever.
Já agradeci os truques baratos e vivi trocando cartas para enriquecer de modo fácil.
De fácil, nem gelatina desmancha em língua
áspera.

Não quero inscrever.
Que seja mais do que um quadro de luz venha pincelar.
Na cegueira noturna, sereníssima cantiga que embala a madrugada e cola na pele
intervindo em pernas guiadas por controle remoto.
Obrigada, sem foto.

...e eu lhe beijo em meu mundo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

História de um pensamento humano

"Nunca esqueça, sempre lembre."

Quando leu isto pela primeira vez, ainda não sentia os pêlos. A voz e o corpo finos. O sorriso tímido e os cabelos encaracolados, amarrotados pela confusão dos dedos. Leu de maneira lenta e curiosa.

Pensou em perguntar a mãe, emergiu o questionamento do estômago, porque o cérebro estava em superlotação.

O menino esqueceu.

Os pêlos cresceram e a voz...quase engrossou, o corpo continua fino, agora alto.


- Para meu amigo Augs.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

di-agnóstico

Tu e teu estômago,
Divididos
No amargo do âmago,
Explodem
Em uma flâmula,
Vertiginosa
Como um pêndulo,
Tonta
Num regurgito íntimo,
Calma
Cala o medo ínfimo,
Jorra
A vida com ímpeto.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010